Crítica | Conspiração Americana
‘Conspiração Americana’ apresenta um evento ocorrido há 150 anos para relatar uma história que até hoje é muito familiar em nosso tempo. Nos estágios finais da Guerra Civil, o poder norte-americano sugere medidas extremas, que ora os torna seres cruéis, ora os coloca na posição de meros subordinados de um poder surpremo e desesperado em satisfazer o consolo de uma nação em luto e tristeza.
A história se passa no século XIX quando, após o assassinato do presidente Abraham Lincoln, Mary Surrat (Robin Wright) se torna a única mulher acusada de uma conspiração contra o estado. Em sua defesa, surge o advogado e recém herói de guerra Frederick Aiken (James McAvoy), que de início despreza o caso, mas que está determinado a promover um julgamento justo para essa mulher. A partir daí surgem pistas que levam a uma iminente participação do filho desaparecido de Surrat, que também é visto como conspirador.
Durante a exibição do longa, é inegável reconhecer o quanto o diretor Robert Redford se esforçou para ambientar o filme, que de forma precisa, faz com que o espectador se sinta um viajante do tempo ao ver tão bem reproduzido esse momento angustiante enfrentado por pessoas reais. Em contrapartida, os ideais do diretor muitas vezes são induzidos no público a ponto de se tornar uma obra que se esforça em induzir uma visão política e ideológica por trás de cada diálogo apresentado em cena.
Surpreendentemente, a atriz Robin Wright é quem rouba a cena dando à sua personagem nuances indescritíveis que são facilmente notadas pela sua brilhante atuação. Sem dúvidas sua cena final no filme é a mais marcante e vai fazer com que o público sinta, com muita dor, o que Mary Surrat acumulou ao longo de um período de desconsolo e sofrimento. Não muito longe dessa veterana das telonas, todas as atuações do filme transmitem o que se espera ver de performances inesquecíveis e gloriosas como a do escocês James McAvoy.
Em ‘Conspiração Americana’, toda e qualquer semelhança com eventos ocorridos ao longo das últimas décadas não é mera coincidencia. É visível que até hoje nossos líderes são desprovidos de força e coragem suficientes para negar algo que está errado e dar ao público exatamente o que eles querem, sendo essa a solução para desenraizar problemas que se mantém submersos eternamente e muitas vezes esquecido. Em um dos momentos marcantes da projeção, eis que surge uma citação que define o que somos conduzidos a refletir: “Eu não me importo qual deles é, desde que um deles paga o preço”. Não deve ser muito difícil resgatar na nossa própria memória diversos fatos históricos vividos neste e no século passado e que até hoje deixaram resquícios. A história acaba sempre se repetindo. Até onde inocência e culpa podem facilmente ser julgadas da forma correta. Se a forca ainda existisse, é provável que muitos ainda fossem vítimas da incompetência dos que deveriam zelar pela justiça e a sua forma correta de aplicação.
‘The Conspirator’ é um longa que permite a reflexão por parte de seus espectadores e certamente trata-se de uma obra real e que instiga nosso pensamento sobre as relações de poder e política, realidade, essa, a qual não estamos nem um pouco longe de mudar. Não é apenas uma mensagem importante para quem se encontra distante de um entendimento mais claro sobre determinados fatos históricos, mas é relevante quando seu contexto é inserido nos dias atuais em que uma quantidade inimaginável de detidos em várias partes do mundo ainda definham na prisão a espera de um julgamento, onde até mesmo um americano, suspeito de praticar terrorismo, torna-se alvo sem ao menos ter sido acusado de algo, quanto menos condenado. Uma cena de renuncia à legalidade, e do esgotamento do significado da democracia.
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