Crítica | J.edgar

Tendo estado 48 anos no poder, John Edgar Hoover se tornou um personagem importante na história política norte-americana do século 20, tendo sido decisivo na criação do Federal Bureau of Investigation (FBI) em 1935, onde esteve no comando até a sua morte em 1972. Hoover mudou a história da antiga e ineficiente organização formada por centenas de agentes corruptos, tornando-a a maior organização policial do planeta, com mais de 16.000 funcionários, além de modernos métodos de investigação criminal.
Essa é a história que todos já conhecem, mas além dos dados históricos, o que mais poderia ser explorado na vida do controverso J.Edgar? Isso é o que o premiado diretor Clint Eastwood aborda em seu mais novo filme. Afinal, quais eram os verdadeiros ideais de John, sua vida privada, a família, os envolvimentos amorosos e a utópica forma como ele almejava o sucesso profissional em sua vida.
Em contrapartida a personagem de Naomi Watts, que optou por não se envolver amorosamente com ninguém para se dedicar totalmente ao trabalho e ao seu superior, John preferiu, de forma quase que invisível, atender aos seus desejos mais secretos e que permaneceram quase que insólitos na sua cabeça durante toda a vida. Com o agente Clyde Tolson – interpretado pelo jovem ator Armie Hammer (A Rede Social), que não faz feio em uma atuação marcante, Edgar encontrou o sentido do amor e o respeito, que no final das contas, era seriam de suma importância em seus momentos finais.
Aqui, Clint Eastwood trata com sutileza sobre o assunto, mas expõe a sexualidade jamais assumida do chefe do FBI, que nunca foi realmente comprovada, nem para as pessoas mais próximas ao seu convívio. Em certo momento da projeção a excelente Judi Dench, no papel da mãe dominante, retruca quando John tenta assumir seus desejos que são logo postos sob alerta quando comparados às consequências que poderiam causar em sua família, vistos como impróprios na sociedade conservadora em que viviam. E mesmo que possa parecer cruel, Anna Marie Hoover desejava apenas proteger seu filho de um trágico destino. Sendo assim, John passou a viver uma relação extremamente discreta com Clyde e permaneceu ao seu lado até os últimos dias de sua vida.

É inegável reconhecer como o trabalho técnico do filme também surpreende. Leonardo DiCaprio está incrivelmente bem construído como um senhor de quase 80 anos, graças aos excelentes recursos utilizados na construção de sua face, que ainda que esteja dominada por uma forte maquiagem – incluindo dentes falsos, uma peruca com cabelos calvos e lentes de contato coloridas para transformá-lo de galã de Hollywood em um homem de 77 anos – o ator consegue expressar cada momento de dor vivido nos últimos momentos desse herói controverso e sem escrúpulos, lado esse, explorado quando são mostrados os dossiês secretos colecionados durante toda sua carreira a fim de chantagear figuras públicas e ligadas à política, como o líder dos direitos civis Martin Luther King JR. Hoover também não gostava do presidente John F. Kennedy e supostamente manteve informações sigilosas sobre o procurador-geral e o irmão mais novo do presidente, Robert Kennedy, que teve um caso com Marilyn Monroe. Hoover ainda foi apontado como racista e acusações persistem até hoje sobre seu caráter e vida pessoal. Na sua velhice, vemos um J.Edgar inesgotável, consumido pelo seu poder. E Caprio sabe conduzir com louvor esses nuances, o que torna injusto o seu esquecimento no Oscar desse ano.
Retratado como uma pessoa contestável por Eastwood, J.Edgar possuía realmente excentricidades que incluíam sua obsessão por limpeza, a gagueira sempre corrigida pela mãe, a sexualidade questionável, o estilo de vida reprimida, a obsessão com o comunismo e a ambição pela glória pessoal. E o recado foi dado, Hoover realmente permanece sendo um mistério, mas foi brilhantemente abordado através de sua intimidade, de uma forma que demoraríamos uma eternidade para desvendar por completo.
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